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sábado, 28 de janeiro de 2017

Manchester à Beira-mar


Nome original: Manchester by the sea
Direção: Kenneth Lonergan
Elenco:  Casey AffleckMichelle WilliamsKyle Chandler
Gênero: Drama
Ano: 2016

     
     Indicado a vários Oscar, filme traz uma bela fotografia, com um roteiro intenso e dramático.
     Lee Chandler precisa retornar a Manchester, cidade que abandonou após uma tragédia pessoal, para cuidar dos arranjos do velório do seu único irmão que deixou sob sua responsabilidade seu sobrinho menor de idade. O personagem principal é mostrado desde o início como um homem mal-humorado e solitário, vivendo em seu quartinho e trabalhando como zelador de prédios. Quando é informado da precoce morte de seu irmão, Lee precisa ir a Manchester e então sua história começa a ser desvendada.
     Desde os primeiros planos, você pensa: puxa, que belas imagens. O frio constante e a neve fazem a fotografia ficar ainda mais bonita, e combinam perfeitamente com a dureza da história dos personagens. Sendo um filme tipicamente masculino (os principais personagens são homens), a obra de Kenneth Lonergan escapa do clichê de mostrar a relação tio-sobrinho como um vínculo de rivalidade constante, como acontece geralmente em filmes sobre relacionamentos entre homens. Desde o início vemos que a relação entre Lee e seu sobrinho foi afetuosa e próxima e, mesmo Patrick enfrentando a morte do pai no auge de sua adolescência, a relação dos dois não se tornou a típica história do "como conquistar o carinho de um adolescente rebelde". Pelo contrário, apesar de todo o sofrimento presente, a relação dos dois foi tratada de forma realística e madura.
     Outro aspecto que dá um refinamento ao filme é a trilha-sonora de violino que acompanha cenas marcantes como a cena da tragédia que destruiu a vida de Lee. Nessa parte, os planos são mudos e só escutamos a longa música clássica que inunda nossos ouvidos, fazendo as imagens ainda mais devastadoras.
     Casey Affleck soube incorporar perfeitamente a tristeza do personagem, que carrega uma história extremamente pesada. Durante todo o filme, a postura fechada e meio mórbida de Lee contrasta com momentos de afeto sutil com o sobrinho, fazendo o filme ainda mais comovente.
      Um filme sobre como viver o insuportável e o como (não) superá-lo.
     
Conceito: Excelente

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Turista Espacial


Nome original: La Belle Verte (França)
Direção: Coline Serreau
Elenco: Catherine Samie, Claire Keim, Coline Serreau, Denis Podalydès, Didier Flamand 
Gênero: Ficção 
Ano: 1996



     Filme francês propõe uma experiência antropológica através da desconstrução da nossa sociedade pela visão estrangeira de extraterrestres. Contudo, de uma maneira bastante informal e interessante.
     Mila (interpretada por Coline Serreau, também a diretora), extraterrestre provinda de um planeta onde o ser humano vive em total harmonia e sustenta um estilo de vida bastante diferente do nosso, viaja à Terra com o intuito de encontrar a família de sua mãe, começando uma jornada pelo planeta que ninguém queria visitar devido à sua situaçào primitiva e tão inferior àquela que ela e seu povo estão acostumados.
     O filme consegue perfeitamente cumprir seu papel de motivar uma reflexão no espectador por colocá-lo em uma perspectiva de observador de si mesmo e de sua sociedade como um todo. Sob a ótica de Mila e seu povo, discussões sobre espiritualidade, alimentação, economia, natureza e vários outros aspectos de nossa humanidade são, por causa da distinção com aquele outro planeta, levantadas e acabam trazendo uma sensação de deslumbramento. Todos as viscitudes dos seres humanos, óbvios como a geração de poluição, o descaso com o meio-ambiente e o sistema econômico cruel, ou sutis (será?) como a alimentação, as frustradas relações interpessoais e individualidade egoísta, são expostos no filme. Um batom, por exemplo, é o causador de um diáologo intrigante sobre o padrão de beleza e nossas expectativas com o mesmo.

     É visível o ativismo e as influências de certas correntes de pensamento no longa e na montagem do planeta-modelo, tão à frente do nosso. Para um espírita, é fácil ver as semelhanças entre a relação da Terra com o planeta do filme e da Terra como os planos espirituais superiores, que os crentes da doutrina espírita acreditam. Jesus Cristo, em ambas as situações é mostrado como um ser enviado ao nosso planeta para nos fazer avançar na linha evolutiva mais rapidamente. O vegetarianismo também está presente, defendido com a repulsa e surpresa quando há a descoberta que aqui em nosso planeta ainda comemos carne.
     Vários outros elementos fazem do filme uma obra inesquecível, que parece ter sido fonte de inspiração para filmes como Avatar e até mesmo do humor presente na série O Guia do Mochileiro das Galáxias (se este não tivesse surgido anteriormente àquele, claro). Cenas engraçadas e criativas surgem aos montes, como o balé dos jogadores de futebol e os diálogos nervosos quando a personagem tenta entender nosso estranho mundo.
     Turista Espacial é um filme instigante, propiciador de uma experiência incrível de descontrução e viagem a nós mesmos. Deve ser visto.
     
Conceito: Excelente

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Amores Brutos



Nome original: Amores Perros (Espanha)
Direção: Alejandro González Iñárritu
Elenco: Gael García Bernal, Gustavo Sanchez Parra, Dagoberto Gama
Gênero: Drama
Ano: 2000 



      Filme de Alejandro Iñárritu é tão bom quanto Babel, e foi feito na mesma forma.
      Uma série de histórias conectadas sobre pessoas e o amor em meio à violência e dor, este último algo inevitável, pelo que parece. Um mendigo e seus cachorros, um jovem e a esposa de seu irmão bandido, um homem que larga a mulher e pra viver com a amante. Esses são os personagens que protagonizam as três partes do filme, cada qual com seus respectivos nomes como título. Gael García Bernal interpreta o jovem que começa a ganhar dinheiro com seu cachorro em rinhas para fugir com a cunhada.
      Diferentemente de Babel, não há um acontecimento específico da qual as histórias dos personagens partem. Eles são apresentados separadamente para depois entrarmos em suas vidas e vermos em quais pontos os outros aparecem ou interferem de modo sutil, como um encontro na rua, ou de modo intenso, como em uma batida de carro. Outra diferença entre as duas obras do diretor é o fato de que Amores Brutos não segue a ordem cronológica em vários momentos, trazendo uma ordenação mais complexa e muito mais interessante e dinâmica ao longametragem. Em compensação, as trilhas-sonoras dos dois filmes são bastante semelhantes e deve-se dizer que foi um bom aproveitamento.
      Fazer um filme múltiplo assim é vantajoso, pois as tramas chatas podem ser compensadas pelas interessantes. Entretanto, o roteiro não cai em momento algum, pretendo a atenção e emocionando, graças aos segredos, à violência e tensão que permeiam as histórias de amor que mais trazem sofrimento do que felicidade. “Porque também somos o que perdemos”, a frase presente na dedicatória final, resume a ideia de Iñarritu.
      Amores Brutos é um grande acerto do diretor espanhol, sendo uma homenagem ao amor e todos os problemas e conflitos que todos nós conhecemos muito bem.

Conceito: Excelente

domingo, 9 de junho de 2013

Melancolia


Nome original: Melancholia
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg,  Kiefer Shuterland
Gênero: Drama
Ano: 2011


       Há filmes que são filmes. Histórias contadas usando sons e imagens. Contudo, há filmes que são poesias, poesias audiovisuais que, se lidas no momento certo e pelos olhos certos, proporcionam uma experiência quase epifânica. "Melancolia", uma obra prima de Lars Von Trier, é dessas.
      Tal é a grandeza desse filme, que não me contive e me propus escrever uma resenha mais apurada, mesmo já o tendo visto pela primeira vez, há mais de um ano, numa sala de cinema, e tendo deixado um pequeno comentário no blog. É válido dizer que a experiência que esse filme me proporcionou naquela época foi muito maior do que agora que o revi, graças ao momento específico que estava vivendo lá. Mas quando uma arte é boa, não importa quantas vezes você a enxerga, sempre consegue a ver.
     Como os outros filmes do diretor, este contém seus elementos característicos, como a divisão em capítulos, a câmera móvel e a valorização dos diálogos. Entretanto, aqui também vemos o culto à imagem e toda a beleza que esta pode oferecer. Logo no início, a sequência de imagens maravilhosas, semelhantes a pinturas surrealistas, em câmera lenta, demonstram a profundidade do longa.
      O primeiro capítulo tem como foco a personagem Justine (Kirsten Dunst) e sua festa de casamento, que acontece na casa da irmã, Claire, e de seu cunhado milionário, o anfitrião. De início, a noiva parece estar vivendo o que espera-se dela: felicidade. Contudo, logo no inicio da recepção, percebemos seu real estado, simplesmente alheia a tudo que ocorre a sua volta e sendo pressionada por todos para "ser feliz". No segundo capítulo, focado em Claire, sabemos que "Melancolia" é um misterioso planeta que passará próximo à Terra e corre o risco de encontrá-la. Com isso, Claire (brilhantemente interpretada por Charlotte Gainsbourg, também presente em "Anticristo", do mesmo diretor), luta contra o desespero, isolada com a irmã depressiva, o filho pequeno e o marido na gigante casa de campo, até o dia da chegada do planeta. Saber que o diretor se encontrava em uma fase da vida na qual teve depressão dá condições de entender melhor a situação melancólica e pessimista que vive Justine. É impossível alguém que já teve tais momentos não se reconhecer. Talvez a ideia não tivesse funcionado tal bem não fosse a incrível compatibilidade entre as duas atrizes principais, que conseguem construir uma relação irmã-irmã comovente e real.
     Frases como "A Terra é má, não precisamos lamentar por ela. Ninguém sentirá falta", conseguem expressar toda a carga de descrença, frustração e aniquilamento que nós, seres conscientes da nossa futura morte certa, em muitos momentos experimentamos. Os belos diálogos e imagens, juntamente com a trilha sonora de violino, formam a melhor personificação da melancolia que já vi no cinema. Mais um filme que ao invés de exigir uma mente aberta, exige um coração disposto a absorver as sensações que surgem quando nos conscientizamos da nossa pequenez e fragilidade como humanos.

Conceito: Excelente

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Europa



Nome original: Europa
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Jean-Marc Barr, Barbara Sukowa

Gênero: Drama
Ano: 1991



      "Europa" faz parte de uma trilogia de filmes (os primeiros!) do diretor dinamarquês Lars Von Trier que não seguem a mesma história, mas sim utilizam da mesma técnica. Leopold Kessler é um jovem americano que consegue um trabalho na fictícia companhia ferroviária alemã Zentropa na Alemanha recém saída da guerra, no ano de 1945. Vindo de uma acolhedora América, com o espírito idealista, o personagem flutua no ambiente destruído e cruel, fruto do terrível conflito.
      A narração presente desde a primeira cena, como se fosse uma hipnose, nos prepara, com contagens regressivas, para os acontecimentos que se sucederão em breve. O primeiro plano, a vista dos trilhos a partir de um trem em movimento no prepara: "No 10 você estará em Europa".
      A imagem em preto e branco dá uma beleza requintada ao longa, e faz lembrar "A lista de Schindler", também pelo tema tratado. Entretanto, a inovação de Von Trier foi dar cor a alguns personagens e objetos em momentos importantes, para destacá-los, além do recorte e sobreposição de imagens em várias partes.
      Após Kessler começar a se envolver com Katharina Hartmann, filha do dono da companhia, os conflitos começam a surgir e até no meio de uma conspiração de resistência nazista ele se vê, provando que a Alemanha naquele tempo era pequena demais para pessoas que, como ele, não tinham uma posição no conflito que se negava a ser esquecido.
      Os diálogos são excelentes, carregados de um drama psicológico que, juntamente com a trilha sonora de suspense constante e o cenário claustrofóbico de um vagão, torna o filme perturbador e com traços noir. Como não se perturbar num lugar palco de tamanho derramamento de sangue e destruição? Alemanha novamente dando arrepios.
      Entretanto o roteiro soa um pouco amador quando explica demais a situação que está ocorrendo, não deixando nada implícito, como se o espectador não fosse capaz de notar na mesma hora, por exemplo, que o judeu que seria a testemunha numa cena tinha sido comprado.
      Outro ponto interessante, é que o roteiro se torna um bocado tarantiniano (no sentido de "nonsense") nas cenas finais, quando o personagem se vê numa confusão que o leva a surtar, suavizando o clima, mesmo com o caos ao redor.
      "Europa" é uma viagem que vale a pena.



Conceito: Excelente

sábado, 12 de janeiro de 2013

Os Idiotas



Nome original: Idioterne
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Jens Albinus, Nikolaj Lie Kaas, Paprika Steen
Gênero: Drama
Ano: 1997

      Primeiro filme de Lars Von Trier feito de acordo com os princípios do Dogma 95 reforça minha condição de grande admirador do cineasta.
      O filme mostra um grupo que forma uma espécie de sociedade alternativa na qual o objetivo é se passar por afetados mentais, tirando sarro em diversas situações e causando constrangimento nas pessoas. No início do filme vemos os personagens interpretando doentes mentais simplesmente para tirar proveito ou para pregar uma peça em desconhecidos. Contudo, com o decorrer da história e a câmera (que devido à brilhante direção parece estar infiltrada entre o grupo) focando o grupo isolado em uma casa, conflitos mais densos começam a surgir, como por exemplo, a discussão sobre a falta de ética em enganar as pessoas e se realmente o objetivo da minissociedade estava sendo cumprido pelos seus integrantes.
      Dentre os personagens, há uma flutuante, chamada Karen, que se junta ao grupo por falta de opção, mas que está longe de querer ser uma rebelde anarquista. Sendo assim, é a mais intrigante e a que protagoniza a cena final, digna de aplausos.
      Além da originalidade do roteiro de Lars Von Trier e do uso Dogma 95 (que faz com que o filme se pareça com um vídeo caseiro), é inacreditável que aqueles são atores fazendo papéis. O entrosamento e atuação de todos beiram a perfeição.
      “Os idiotas”, ao contrário do que parece no início, é um filme que, como todos do diretor, faz pensar, e de um jeito tão instigante e inovador que suas duas horas de duração passam num piscar de olhos.

Conceito: Excelente

terça-feira, 1 de maio de 2012

A Vida dos Peixes




Nome original: La vida de los peces (Chile)
Direção: Matías Bize
Elenco: Santiago Cabrera, Blanca Lewin
Gênero: Drama
Ano: 2010

     Filme emocionamente e de uma beleza real. Uma história que acontece com todos em algum momento na vida.
     Andrés é um jovem prestes a viajar para a Europa, para continuar seu trabalho de jornalista de guia turístico. Entretanto, primeiro precisa resolver pendências de um passado distante com Beatriz. Toda a história do longa se passa durante uma noite, numa festa de aniversário, onde os dois personagens principais estão presentes. Há 10 anos morando fora, Andrés leva uma vida sem vínculos e distante dos seus antigos amigos que estão todos presentes na festa. Contudo, a pessoa que Andrés mais espera encontrar é Beatriz, sua ex-namorada que não vê há muito tempo.
     A narrativa do filme é lenta e sutil, do jeito que eu gosto. A câmera acompanha o personagem perdido pela festa, inconfortável com a situação de encontrar com sua ex, e desde o início sentimos que há alguma expectativa nesse encontro. Para quem já viveu algo parecido, o filme é bastante interessante. Após algumas conversas constrangedoras entre os dois, chegamos à cena mais bonita do filme: os dois diante de um aquário discutindo o que sentiram e viveram após a estranha separação, e o vislumbre daquela vida que poderiam ter vivido mas que agora só pode ser imaginada e admirada como a vida dos peixes em um aquário.
     Além das cenas com as interações com os outros personagens, sempre com conversas muito informais, fazendo com que nos sintamos como um convidado da festa, há a bela canção que pode ser conferida abaixo, que prova que em questão de trilha-sonora, filmes latinos quase sempre ganham.



Inverness - Nubes



"El mar sabe a sal y no podrás tragarla jamás
El cielo tiene nubes y no podrás tocarlas jamás"


Conceito: Bom

sábado, 9 de abril de 2011

A Fita Branca

     
Nome original:Das Weisse Band - Eine Deutsche Kindergeschichte
Direção: Michael Haneke
Elenco: Susanne Lothar, Ulrich Tukur, Burghart Klaubner, Josef Bierbichler.
Gênero: Drama
Ano: 2009



      Filme é uma tese sobre a origem do MAL que assolou a Alemanha no século passado.
      Michael Haneke traz a história de um pequeno vilarejo alemão através da narração de um professor sobre estranhos fatos que começaram a acontecer no local, ano ano de 1913. Alguns moradores começaram a ser atacados, trazendo um clima de desconfiança entre os moradores.
      A história começa quando o médico da vila cai do cavalo graças a um arame estendido em frente à sua casa. Desde então, como o próprio narrador diz, os fatos a seguir poderiam dar uma dica das razões do a Alemanha se tornou mais tarde: cenário de ódio, repressão e intolerância. E o que vemos nas cenas seguintes não é nada mais do que isso, porém sempre coberto com o véu da religião, educação e paternalismo.
      O filme é focado nos relacionamentos familiares, principalmente nas famílias do pastor e do médico. Com a típica organização e rigor que tanto admiramos nos europeus, as crianças sofriam forte repressão e uma educação à base da punição. Aí entra o nome do longa: a fita branca amarrada no braço das crianças, após o castigo, serve para lembrá-las da pureza e inocência. Tal fita lembra muito àquela usada pelos judeus após a ascensão nazista ao poder.
O diretor soube explorar de um jeito magnifíco a inocência infantil sendo confrontada com a violência. Por fim, o filme todo é uma personificação da sociedade alemã que, de tão massacrada pela inveja, ódio e repressão, acaba mais tarde apoiando o nazismo.
Além disso, "A Fita Branca" é um filme visualmente bonito, graças principalmente ao preto-e-branco que faz com que o clima seja ainda mais frio e seco.



Conceito: Excelente

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Avatar

     
Nome original: Avatar
Direção:James Cameron
Elenco: Sam Worthington , Zoe Saldana , Michelle Rodriguez , Sigourney Weaver , Giovanni Ribisi
Gênero:Ficção
Ano:2009



     Sinto-me envergonhado de, apesar de me considerar um cinéfilo, ter assistido o fenônemo mundial "Avatar" somente muitos meses depois de sua estréia. Como acontece com vários blockbusters, tendo a ignorá-los, pois geralmente são recheados somente de ação barata, roteiro fraco e alguns efeitos visuais para encobrir a fraqueza do resto. Ao ver a nova obra de James Cameron, percebi que, desta vez, errei feio.
     Tudo que eu sabia de Avatar era que tinha coisas como seres azuis nativos de um planeta chamado Pandora e que os humanos se infiltravam nesse planeta portando um avatar, como se fossem um dos Navi. Além disso, ouvi que o filme continha algumas mensagens de "respeite a natureza" e coisas do tipo.
     Diferente de Matrix, Avatar não é um filme de ficção científica que explora a tecnologia em si, mas sim esse novo e fantástico planeta que os humanos no filme têm acesso graças a ela. O filme não tem um conflito definido durante muito tempo, pois James Cameron reservou grande parte das cenas para simplesmente desvendar Pandora e mostrar o cotidiano do clã dos Navi que agora tinha como novo membro o forasteiro Jake, fuzileiro enviado para estudar o comportamento dos nativos e ganhar sua confiança.
     A confusão se estabelece quando os humanos mostram pra que estão no lugar: explorar as riquezas do planeta, assim como fizeram com a Terra. A partir daí o filme intercala cenas passadas nas instalações humanas com as passadas no meio do clã Navi, do qual Jake, cada dia mais, se sentia parte. Predador e presa.
     A ligação dos Navi com a natureza (materializada pelos "plugs" que os conectam, literalmente, aos animais e plantas) se opõe à total indiferença dos humanos com o meio-ambiente, convictos de que devem simplesmente sugar tudo que há de valioso nele e transformar em dinheiro. As vistas de encher os olhos do maravilhoso mundo e a pureza dos seus habitantes fazem o espectador sentir asco de nós mesmos, os admiráveis humanos. Nunca as relações homem-natureza e homem-poder foram tratadas tão poeticamente como nessa obra.

     Palavras não conseguem descrever quão espetaculares as paisagens de Pandora são. E o mais interessante de tudo é que graças aos efeitos especiais, você vê e sente tudo aquilo. Esse foi outro equívoco meu: não imaginar como o espetáculo visual de que todos falavam podia ter a capacidade de te transportar pra dentro do filme e esquecer que aquilo tudo foi filmado num cenário de fundo verde. É impossível piscar os olhos.
     Mesmo sendo capaz de emocionar pelo drama vivido pelos personagens e pela destruição causada pelo homem, o roteiro tende a valorizar mais as cenas de ação, o que o fez perder pontos para os que buscam algo mais dramático. Entretanto, Avatar é bem mais do que aquilo que me diziam e discordo totalmente do ponto de vista de muitos que dizem esse é mais um daqueles filmes com roteiro fraco e visual bom. Em minha opinião, ambos são bons. Os conflitos e os relacionamentos dos personagens podem até ser clichê, mas a originalidade da idéia geral do filme por si só merece aplausos.
     Após assistir a Avatar, tive a sensação de ter experimentado alguma droga psicodélica devido ao novo mundo que surge na tela. Admito, não esperava tanto.


     
Conceito: Excelente

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Corra, Lola, Corra

     
Nome original: Lola Rennt
Direção: Tom Tykwer
Elenco: Franka Potente, Moritz Bleibtreu, Herbert Knaup
Gênero: Ação
Ano: 1998


     Esse filme alemão é simplesmente brilhante, eletrizante, inteligente e original.
     O diretor Tom Tykwer oferece três versões para uma mesma história: Lola precisa correr muito para conseguir 100 mil francos em vinte minutos para salvar a vida de seu namorado. Cada uma das três partes tem meia-hora de duração e um final diferente.
     Só a idéia mencionada acima já demonstra como o filme é genial. Além disso, a trama mostra como estamos todos interligados e interferindo nos acontecimentos nas vidas uns dos outros. Assim como qualquer número pode sair quando jogamos um dado, qualquer evento pode acontecer à nossa volta pois tudo é um resultado de vários acasos. Podemos ser qualquer coisa e qualquer coisa pode acontecer em nossa vida, existem várias realidades nos esperando, mas só uma acontecerá de fato e isso vai ocorrer aleatoreamente.
     Para aumentar a perturbação do espectador, durante quase todo o filme a trilha-sonora é um som techno que junto com a desorientação de Lola e a fotografia inquieta de Tom Tykwer, retrata a agitação e a correria (muita correria) da vida moderna. Assita o mais rápido que puder pois é uma obra de gênio.


     
Conceito: Excelente

domingo, 20 de setembro de 2009

Foi apenas um Sonho

     
Nome original: Revolutionary Road
Direção: Sam Mendes
Elenco: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Kathy Bates
Gênero: Drama
Ano: 2008




     O melhor filme que assisti esse ano.
     O reencontro do casal do Titanic não tinha como ser melhor. Kate Winslet e Leonardo DiCaprio encenam nesse filme de Sam Mendes (“Beleza Americana”) um casal que participa de discussões épicas, como em “Quem tem medo de Virginia Woolf?”. April e Frank Weeler vão mudar seu modo de ver a vida em sociedade.
     Ela, uma dona de casa com a carreira de atriz frustrada. Ele, um funcionário de uma empresa que odeia seu emprego, adúltero e insatisfeito com o que sua vida se tornou. Qual a diferença entre os dois? Ela vê uma saída, ele acha que aquela vida é normal. O plano dela: largar tudo e se mudar para Paris, onde ela iria sustentá-lo e onde ambos acreditam que seja o único lugar em que podem ser felizes. Ela é a revolucionária que viu o buraco e a falta de esperança e tenta fugir dele. Ele, uma vítima da sociedade que prefere não enxergá-lo e ir levando a vida.

     Sam Mendes critica explicitamente o modo de vida americano, que mesmo sendo americano, não deixa de ser o mesmo que a maioria da população mundial sustenta. Um estilo de viver que tem como uma das piores conseqüências a artificialidade das relações. As pessoas deixam de ser quem são, para serem o que possuem. Apesar da história se passar na década de 50, é perfeitamente aplicável à atualidade. Na verdade, acho que é ainda mais aplicável atualmente do que antes. Pessoas sacrificam a vida trabalhando, trabalhando e se esquecem de suas vontades. Ou melhor, há uma vontade que nunca esquecemos: a de consumir. Esse é o desejo que nos move quase na vida toda. Assim, cada vez vamos nos afastando mais um dos outros, deturpando a noção de respeito, afeição e individualidade. A representação do mundo pode ser uma linha de montagem de uma fábrica, onde nós somos as mercadorias. Somos programados para termos metas e seguirmos regras impostas e se não fizermos isso, perdemos o valor nesse emaranhado de pessoas. A vida pode ser mais do que isso, pois quem criou esse sistema foi nós mesmos. É nisso que April acredita e espero que esteja certa.

     Todas as cenas desse filme são inesquecíveis e perfeitas e todos os diálogos são inteligentes. Leonardo DiCaprio e Kate Winslet foram brilhantes. As melhores atuações que vejo há muito tempo. Winslet foi mais ainda mais talentosa aqui do que em “O Leitor”. A trilha sonora, como em “Beleza Americana”, fica na memória por muito tempo e fornece ainda mais emoção para uma das cenas mais magníficas que já vi, na qual há somente April e uma janela. Quem viu sabe do que estou falando.
     É impossível descrevê-lo em um texto, pois ele suporta discussões de horas e horas de duração. Simplesmente assista-o. Não o interpretando como um drama sobre brigas de casal, mas sim como um ensaio da situação dos homens em sociedade. Ou você vai se surpreender muito ou vai odiá-lo totalmente.


     
Conceito: Excelente

sábado, 18 de julho de 2009

Dúvida

     
Nome original: Doubt
Direção: John Patrick Shanley
Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman,Amy Adams
Gênero: Drama
Ano: 2009


     Protagonizado pela mestra Meryl Streep, esse é um dos filmes mais inteligentes que já assisti. Juntamente com O Leitor, Dúvida é o melhor filme do Oscar 2009. Enquanto o primeiro afeta mais seu lado emocional, o segundo afeta seu lado racional.
     Irmã Aloyisius é uma freira que dirige uma escola católica com mãos-de-ferro quando começa a desconfiar que um pároco está tendo uma "relação imprópria" com um dos alunos e assim faz de tudo para provar que sua impressão está certa. Atuações fantásticas compõem essa obra de arte, principalmente dos três principais: Streep, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams. Cenas e diálogos longos passam toda a responsabilidade para os atores que com muita competência nos involvem nas conversas, como se estivéssemos participando delas.
     É fácil comparar o conflito desse filme com a história do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis. Ambos possuem um personagem com uma séria desconfiança sobre outro indivíduo e nos dois casos são fornecidos fracas provas que confirmam a suspeita e no final, não temos uma resposta concreta. Ainda, as duas obras nos obrigam a escolher um lado. Assim fica a pergunta: padre Flynn abusou ou não de Donald Miller?

     No meu ponto de vista, Dúvida traz muito mais do que um quebra-cabeça onde há fatos que devem ser usados ou no lado de Irmã Aloyisius ou no lado do padre Flynn, que afirma sempre que sua relação com o garoto é só uma amizade. Acredito que a chave de toda a trama é a personagem da Irmã, que move toda a campanha contra o pároco. Suas suspeitas já começam com fatos longe de serem provas e isso mostra que algo a impeliu a implicar com o padre, mas qual seria? Como uma rígida e conservadora freira, acredito que ela seja a personificação de toda a filosofia de uma das maiores instituições do mundo ocidental: a Igreja Católica. Todos os atos de Irmã Aloyisius convém com o que sua religião prega e portanto, o fato de ela alimentar essa forte desconfiança sobre Flynn também provém dessa fé inabalável. A cena que me fez chegar à essa opinião é aquela em que ela diz: "Eu não tenho compaixão pelo senhor. (...) Sei que você não se arrependeu". Já tendo admitido que ela mesma havia cometido sérios pecados em sua vida, ela afirma que ela tinha se arrependido. Está aí uma das maiores características do cristianismo: culpar a humanidade por aquilo que chamam de "pecado" e fornecer como única escapatória seu arrependimento. A fato de Aloyisius não ter necessitado nenhuma prova antes de apontar o dedo para Flynn e tê-lo obrigado a admitir sua culpa mostra como as regras da Igreja afirmam que todos nós merecemos ser eternos mártires. Não importa o motivo. Do outro lado, temos o pároco com sua filosofia religiosa totalmente oposta, onde a escola precisava se freiras e padres mais amigáveis com os estudantes e que ofereçam a eles mais compaixão e tolerância. Esse é outro ponto que impulsiona a Irmã a tentar de qualquer modo que o padre seja culpado para que assim ele desaparecesse da escola onde ela é diretora, e dessa maneira continuar com seus meios de julgar e punir. No meio dessa luta, há a Irmã James, que acaba ficando desorientada, sem saber se acredita na culpa de Flynn ou não. De um lado é ela chamada de ingênua, e de outro, de bondosa. Munida com uma suposta crença absoluta de que ele era um pedófilo, Aloyisius faz de tudo para obter sua confissão. porém, no final ela percebe que talvez tudo não tenha passado de uma auto-enganação, movida pela sua cega crença em toda em sua moral de julgar as pessoas, provinda da moral cristã. Concluindo, em minha opinião, a história mostra como a religião obriga as pessoas a terem fé em suas regras e se comportarem do modo que ela permite, e com isso, passam a ter a impressão que sua fé é absoluta. Porém, o que todos temos, lá no fundo, são...DÚVIDAS.


Conceito: Excelente

sábado, 20 de junho de 2009

Ensaio sobre a cegueira

     
Nome original: Blindness
Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover,
Gênero: Drama
Ano: 2008


Revendo o filme hoje, resolvi escrever outro comentário.




     O filme mais incrível de 2008.
      Baseado no livro de José Saramago, o filme narra a história de uma onda de "cegueira branca" que atinge a população sem motivos aparentes e é contagiosa. Começa com um homem no trânsito e rapidamente se alastra por todos os lugares. Os primeiros infectados são levados para um prédio e colocados em quarentena e é nesse grupo que se encontra a personagem de Julianne Moore (nome desconhecido, assim como de todos os outros personagens e do país em que a trama se passa), a única que consegue enxergar. Lá dentro, forma-se uma minissociedade onde os instintos humanos se afloram, destruindo todos seus princípios e causando caos total.

      Buzinas, carros, semáforos, pessoas, prédios. Nesse cenário a primeira pessoa adquire a cegueira branca. Quem assiste a esse filme com olhos de espectador de um filme de ficção-científica perde muita coisa e provavelmente frustra-se. Nunca vi em um filme tamanha diversidade de mensagens e metáforas e por essa razão você deve compreendê-lo somente com a subjetividade. “Blindness” é um ensaio sobre a condição humana e da sociedade em que vivemos. Caos.

     Nos tornamos seres que vivem de hipocrisia e aparências. O que nos forçaria a olhar para nossa verdadeira essência? Uma cegueira que acabaria com nossa moral e nos obrigasse a vislumbrar nosso interior e o interior das outras pessoas. No início da história, quando o grupo ainda está no prédio isolado, vemos na tela somente imundície, mas quando eles estão livres, num mundo onde toda a população está cega, vemos como aquelas sim eram verdadeiras pessoas. A trama também fala de papéis e de como estamos presos em rótulos, e isso é mais um ponto que piora nossa condição de seres que não sabem quem realmente são. Com nosso egoísmo, temos a impressão de sermos totalmente independentes dos outros e que podemos tudo, que somos heróis que podem cuidar de tudo. Cada cena aborda questões diferentes e é preciso assistir mais de uma vez para sentir todos os tapas na cara que a história nos dá.
     Fernando Meirelles usou de alto brilho nas imagens para passar a sensação de não enxergar nada a não ser um “mar de leite” e achei bem interessante. A trilha-sonora, entretanto, foi um pouco repetitiva, com sons do grupo mineiro Uakiti que faz música com instrumentos inusitados, como canos de PVC.
     ”Ensaio sobre a cegueira” fornece material para horas e horas de discussões sobre psicologia, sociologia, filosofia ou de qualquer área. Isso depende de seu ponto-de-vista. Ainda não li o livro para dizer o que faltou ou que ficou ruim, mas para o cinema, é extremamente formidável. No final, guarde a mensagem da única não-cega da história: nós somos cegos, não eles.


Conceito: Excelente

sábado, 30 de maio de 2009

O Passado

Nome original: El Pasado
Direção: Hector Babenco
Elenco: Gael García Bernal,Analía Couceyro, Ana Celentano
Gênero: Drama
Ano: 2007


     Hector Babenco, diretor de "Carandiru", leva às telas esse drama de roteiro denso e inesquecível.
     Ramini e Sofia formam um casal junto há 12 anos e que agora se separa, trazendo sérios problemas a Ramini por causa das perseguições da ex-mulher. Nem de longe "O Passado" é uma história de ciúme doentio pois seu roteiro é bem mais complexo do que esperamos. O casal é uma personificação de vários outros reais, que estão a nossa volta e passam pelos mesmos problemas, principalmente quando sua história não dura até que a morte os separe.
     O personagem principal do filme é o passado. O passado onde Ramini e Sofia viviam casados unidos pelo amor que parecia ser eterno. Depois da separação temos mais dois personagens principais: os dois divorciados. De um lado temos um tradutor viciado em cocaína e que depois de ter se separado da mulher foge de qualquer jeito do passado, ignorando a ex-mulher e as fotos do casamento. Do lado oposto temos ela e suas apelações para que Ramini resolva as situações pendentes e os compromissos que qualquer relacionamento, mesmo que acabado, exige. Sofia vai fazê-lo aprender a lição, custe o que custar.

     Podemos definir o filme como feminista tendo em vista que o homem foi personificado como o indiferente e descompromissado com os sentimentos alheios e a obra agradará todas as mulheres, que agora têm sua vingança através da personagem Sofia. Assim, a mulher ensina Ramini por dolorosas lições que não adianta fugir do passado porque ele sempre estará lá e enquanto ele não aprender a conviver com ele, sua vida não continua. Gael García Bernal e Analía Couceyro se saíram muito bem nas interpretações desses papéis complicados que não trazem uma vítima e um vilão. São simplesmente ex-amantes presos no...passado. A personagem de Analía, Sofia, é ainda mais complicada pois não sabemos se ela está maluca ou se está simplesmente sendo forte o bastante para agir contra a indiferença do ex-marido e sua atitude evasiva em relação ao seu relacionamento. O história traz uma crítica a todos que brincam com sentimentos de outros e que mesmo sem se dar conta, destroem suas vidas e o casal do filme é representação de todos esses relacionamentos no qual há um amando e o outro ignorando.
     Todas essas mensagens estão escondidas e por isso a história não se torna clichê. A trama deixa pontos que podem ser explorados de uma maneira diferente por cada espectador, um ótimo trabalho do diretor. Muitas cenas trazem metáforas e diálogos que dependem da sua percepção para ser desvendados e tudo isso com uma fotografia muito bem montada e a trilha-sonora de violino que traz uma interessante melancolia às cenas. Como toda a trama, várias cenas e diálogos são secos e "quentes", o que nos faz ficar ainda mais íntimos dos personagens.
Esse filme argentino é extremamente recomendável a todos que querem uma história para pensar e ter mais uma prova de como o cinema é mesmo apaixonante e poderoso.


Conceito: Excelente

sábado, 18 de abril de 2009

Crepúsculo dos Deuses

     
Nome original: Sunset Boulevard
Direção:Billy Wilder
Elenco:William Holden, Gloria Swanson, Nancy Olson
Gênero:Drama
Ano: 1950



     Clássico brilhante, indispensável para todo cinéfilo.
     Quando fugia de cobradores, o roteirista fracassado Joe Gillis (William Holden) acaba entrando em uma mansão (na Avenida Sunset, por isso o título original) que à primeira vista parecia abandonada. Por coincidência, na casa, que não estava abandonada, morava uma famosa estrela do antigo cinema-mudo, Norma Desmond, que o convida a ajudá-la a escrever um roteiro para um filme que será estrelado por ela mesma. A oportunidade parece perfeita para Gillis, que precisava de um emprego, e ele aceita o trabalho, apesar de o roteiro escrito pela atriz para seu retorno às telas ser péssimo. O que parecia ser um simples emprego acaba se tornando uma situação perturbadora, pois Norma usa sua soberba, carência, dinheiro e também paixão para aprisionar Gillis de todas as formas possíveis, tornando sua vida nada agradável.
     O filme traz Gloria Swanson interpretando uma personagem inesquecível, tanto por sua atuação, tanto pela originalidade do tema que o filme trata por meio dela: a decadência de uma típica atriz de cinema orgulhosa e narcisista que por causa da piedade das pessoas à sua volta, não está a par de que sua época de ouro já se foi. Uma esquecida que não sabe de seu esquecimento. O grande ponto do filme é que não sabemos se ela realmente não sabe que sua carreira já acabou ou se seu subconsciente a manteve sonâmbula nesse mundo de falsa adoração e soberda que ela mesma construiu com a ajuda de seus amigos que, como um ato de caridade, preferiram a manter nesse estado de sono, na onde ela se manteve até o final da trama. A cada cena, ficamos com mais pena e percebemos quão patética a personagem se torna.
     Assim como "Cantando na Chuva", esse clássico mostra consequências da substituição do cinema mudo pela nova forma de fazer filmes, causando, nesse caso, a queda da estrela Desmond. Afundada em sua paixão pela fama, ela recusa-se, consciente ou inconscientemente, a aceitar que sua presença nos estúdios é coisa de outrora. Dessa forma, o filme faz um ensaio de como o mundo glamouroso dos artistas transforma alguns em viciados.
     Durante todo o filme, a narração da história por Joe Gillis nos acompanha, trazendo suas impressões e confissões ao espectador, fazendo o filme ficar ainda mais interessante. O roteiro permitiu-se até mesmo trazer algum humor a esse enredo que, no final, acaba se tornando bem sinistro e angustiante. Outra impressionante A cena final, que traz o ápice da loucura da personagem principal espanta pelo enorme brilhantismo e faz você pensar "Que filmaço!".
     "Crepúsculo do Deuses", além de trazer o nome em português mais impactante que o original, traz também um roteiro marcante que mereceu completamente o Oscar de 1950 e vai ficar em sua memória por um bom tempo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Piaf - Um hino ao amor

     
Nome original: La Môme
Direção: Olivier Dahan
Elenco:Marion Cotillard, Sylvie Testud, Pascal Greggory, Emmanuelle Seigner, Gérard Depardieu
Gênero: Drama
Ano:2007


     Atuação brilhante de Marion Cotillard marca o filme que traz a biografia da famosa cantora francesa Edith Piaf.
     Das ruas de Paris para os palcos. Edith teve uma infância um tanto conturbada, sendo criada por sua mãe, que cantava nas ruas para conseguir dinheiro; por seu pai, malabarista de circo; e por sua avó, dona de um bordel. Após seu talento ser descoberto, passa a ser a mais conhecida cantora francesa do século passado. No meio de tudo isso ainda se encontrava sua péssima saúde.
     O Oscar mais bem merecido de 2008 foi, sem dúvida, o dado a Marion, que interpreta a cantora. Com a ajuda da maquiagem, vemos na tela quase a verdadeira "pardal" que emocionou pessoas por todo o mundo. Vemos seu sofrimento de ter seus amores levados de sua vida, um a um. A cena da volta de Marcel, seu namorado, foi a cena de 2008.
     Com certeza você vai se emocionar muito e se encantar com as belas canções de Edith e sua voz singular. "Piaf" entra na minha lista das melhores biografias que já vi na tela.


     

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O Grande Ditador

     
Nome original: The Great Dictator
Direção: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Jack Oakie, Paulette Goddard, Henry Daniell
Gênero: Comédia
Ano: 1940


     Nessa sátira imperdível, Charles Chaplin interpreta dois personagens: um barbeiro judeu e o grande ditador Adenoid Hynkel (pra não dizer que era o nazista Adolf Hitler). As duas histórias vão se alternando durante a trama e prometem não só momentos de altas risadas, mas críticas ácidas contra a guerra. Você vai ver um Hitler, ou melhor, um Hynkel, de um jeito que todos sempre quiseram e que nunca foi mostrado: inseguro, infantil e hilário. Chaplin brinca com um dos maiores tiranos da história buscando elementos bizarros, sem-sentido e controversos de sua própria ideologia e atitudes para usar contra seus criadores ("Um mundo de loiros com olhos azuis governado por um ditador moreno!", exclama ele). A personalidade do líder nazista e seus aliados é ridicularizada de um modo genial e para finalizar, vemos um Charles Chaplin na tela proclamando palavras anti-guerra tão poderosas como nunca vistas, capazes de emocionar e inspirar qualquer espectador. Comédia de primeira-classe!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O Nevoeiro

     
Nome original: The Mist
Direção: Frank Darabont
Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden
Gênero: Terror
Ano: 2007


     Um dos melhores filmes baseados em obras do mestre do suspense Stephen King.
     Assim como Almodóvar tem suas características de filmar bem visíveis, King também tem seu estilo original de escrever. Suas ficções excêntricas, sarcásticas, brutais e cheias de fantasia tornam-no um dos mais célebres escritores americanos.
     "O nevoeiro" traz a história de um grupo de pessoas que fica preso dentro de um supermercado depois que uma névoa cobre toda a cidade, e onde estranhíssimas e asquerosas criaturas estão habitando. Não há freios para a imaginação de King. Nem freios, nem falta de ousadia. O filme, além de trazer alguns litros de sangue, gritos, pânico, pulos do sofá, também aborda temas que podemos chamar de... filosóficos. Fanatismo religioso, a insanidade humana e o que o medo causa nas pessoas também estão presentes nesse espantoso filme de modo muito interessante. Mestre King parece um escritor realista no que diz respeito à sua falta de crença no ser humano. Até agora disse somente sobre o enrendo do romance, mas em questão de adaptações de livros de Stephen, como a história é o mais importante, entenda que também estou elogiando o longa-metragem.
      Na obra cinematográfica, com certeza poderiam ter escolhido um ator melhor do que David Drayton para o papel principal, mas não poderiam tê-lo feito com a fanática religiosa Carmody, interpretada com talento por Marcia Gay Harden. Os efeitos especiais não são nem de perto como os de Steven Spielberg (na verdade, ficam bem longe disso), mas isso é o de menos. Ao contrário do que esperava, é um bom filme e seu desfecho é um dos mais cruéis que já assisti, como o conto bíblico de Abrãao e o sacrifício, porém com outro final. Isso que dá não escutar a maluca da Carmody...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

V de Vingança

     
Nome original: V for Vendetta
Direção: James McTeigue
Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving,Stephen Rea, John Hurt
Gênero: Ficção
Ano: 2006


     Em um futuro incerto, em uma Inglaterra totalitária, surge um opositor mascarado (codinome "V") que planeja uma revolução contra o sistema com a ajuda da jovem Evey. É um filme de ficção política inteligente e extremamente marcante.
     As semelhanças do governo do chanceler inglês Sutler com o nazismo de Adolf Hitler são incontestáveis. Isso foi um dos motivos que tornou o filme tão emocionante. O roteiro do filme é brilhante e inteligente e junto com os diálogos proporciona uma sensação inédita ao espectador de criar um governo monstruoso nesta nossa sociedade tão marcada pela democracia. Até essa obra de James McTeigue, esse tipo de tema em filmes se restringia no máximo em reconstruções do III Reich. As ideologias monstruosas tendo como cenário a Inglaterra fazem de "V de Vingança" uma trama magnífica. Para quem gosta de cenas de ação, vale ressaltar que em meio aos conflitos políticos e apelos sentimentais, há também cenas de luta que merecem respeito. Não só o personagem revolucionário "V", mas todo o roteiro, tornam a obra obrigatória para todos. A parte na qual Evey é "presa" e aquela cena em que os cidadãos americanos saem às ruas fantasiados merecem aplausos. Todo o filme transpira inspiração para a luta, otimismo e coragem. Precisamos dos três em relação à nossa sociedade pois, principalmente nós brasileiros, estamos acostumados à submissão. O filme talvez tenha pecado em alguns pontos onde injetou ficção desnecessária e que só afastaram a história da realidade, tal como o vírus mortal, mas isso não conseguiu estragá-la.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cantando na Chuva

     
Nome original: Singing in the Rain
Direção: Gene Kelly e Stanley Donen
Elenco: Gene Kelly, Donald O'Connor, Debbie Reynolds, Jean Hagen
Gênero: Musical
Ano: 1952



     Esse que é o clássico dos clássicos de Hollywood é recomendável a todos, até os que não apreciam tanto o gênero.
     Don Lockwood é uma estrela do cinema junto com sua colega Lina Lamont. Suas carreiras no cinema mudo estão sólidas até que este começa a ser passado pra trás com a chegada do áudio na sétima arte. Assim, iniciam o projeto de seu primeiro musical com a ajuda de sua amada Kathy Selden. Quase toda a trama se passa num estúdio.
     Com humor e descontração, a história e os números musicais são encenados de uma maneira leve e com um visual fantástico. A produção do filme todo chega a assustar de tão bem feita para a época. A maioria das cenas de dança é composta por Gene Kelly e seu sapateado e dentre todas, destaca-se aquela em que dança "Good morning" com Kathy e seu amigo Cosmo. Mas, em geral, todos os números são agradáveis. Sem falar da cena mais famosa da história: Gene e seu guarda-chuva sobre a noite chuvosa cantando "Singing in the Rain". O clássico é animado, romântico, engraçado e merece ser revisto várias vezes.