sábado, 9 de maio de 2009

LIVRO: A Ilha

Nome original: Island
Autor: Aldous Huxley
Gênero: Ficção (?)
Ano: 1963


     Primeiramente, adianto que esse livro não tem nada a ver com o filme "A Ilha" que muitos já devem ter assistido.
     O nome da ilha ficcional é Pala e situa-se em algum lugar do oceano Atlântico que eu não me lembro. O personagem principal é John Farnaby, que "por acidente" naufraga na ilha e assim passa a conhecer seus habitantes e sua cultura. Aldous Huxley constrói a ilha, em seu ponto de vista, nos moldes de uma sociedade utopicamente perfeita. Atacando os problemas de nosso mundo ocidental, ele faz com que os habitantes de Pala ajam de modo oposto, criando uma ilha livre das podridões as quais somos submetidos aqui.
     Dentre os pontos criticados, os principais são: a religião, o Estado e o capitalismo. Pra mim, essas são as raízes de nossos problemas, pois nossas idéias, ética e moral atuais provêm deles. O escritor britânico tem total credibilidade para fazer tais julgamentos porque como observamos pelos seus outros livros, ele possui conhecimento em quase todas as áreas de estudo: biologia, sociologia, filosofia, política e religião. Apesar disso, muitas de suas idéias aqui parecem óbvias e nos dá a impressão que sua única ação inédita foi tê-las colocado num romance. Por esse motivo, ele não me surpreendeu tanto quanto o brilhante "Admirável Mundo Novo" que traz idéias pessimistas e originais de Aldous sobre o futuro da humanidade.

     O livro quase não possui uma trama ficcional. Ela é simplesmente uma desculpa para as longas conversas entre os personagens que descrevem a ilha para o forasteiro e assim, sendo toda a história formada de diálogos entre Farnaby e os palenses, o livro é uma mera descrição de como funcionado a ilha perfeita. O conteúdo do livro lembrou-me um livro didático de sociologia, ou de alguma área que eu citei acima e esse é um dos motivos que ele se torna parado às vezes.
     Algumas teorias de Aldous são simples e até óbvias, porém, há certos pontos bem complicados de se entender por exigiram conhecimento de várias áreas. Um exemplo são as partes em que os personagens discutem religião, que são um pouco confusas pela presença de elementos da cultura oriental e essa é exatamente a parte mais discursada na trama. Na verdade, há no livro muitas partes difíceis de entender completamente pelo mesmo motivo: diversidade de elementos incorporados.
     Segundo o autor, a alta taxa de natalidade, a frustração sexual da população e a máquina capitalista são algumas variáveis da equação que resulta na nossa sociedade doente e essa última é o maior temor dos moradores da ilha que fazem de tudo para se manterem isolados da selva onde todos buscam dinheiro. Lá, além de a espiritualidade estar acima de tudo e agirem de maneiras bem diferentes, sua economia é quase subsistente.
     Suas críticas aos nossos vícios e futilidades são tão ásperas que, junto com as outras várias, ele nos faz sentir vivendo num mundo totalmente perdido. Seu ataque ao cristianismo e à sua doutrina contraditória, simplista e tola, no mínimo o condenaria à fogueira se vivesse Idade Média.
     Pala oferece a solução para todos os problemas da humanidade: alimento para os famintos, paz para os desorientados, conhecimento para os ignorantes, liberdade sexual, respeito e igualdade a todos, espiritualidade aos desequilibrados, etc. Os argumentos que seu criador demonstra no livro nos fazem perceber como nossa sociedade está doente e que isso é fruto do passado, da moral e de tudo criado pelos homens, e não uma condição que surgiu naturalmente. Leia "A Ilha" e sinta Pala jogando na sua cara nossa decadente situação. Nós criamos os sistemas e sofremos com eles. Admiráveis seres humanos...

7 comentários:

Aline Dias disse...

O livro quase não possui um enredo. Ele é simplesmente uma desculpa para as longas conversas entre os personagens que descrevem a ilha para o forasteiro e assim, sendo toda a história formada de diálogos entre Farnaby e os palenses, o livro é uma mera descrição de como funcionado a ilha perfeita.

tá, mas isso não é o enredo? como é que quase não possui?

Henrique disse...

"Enredo", nesse conxtexto, significa uma trama ficcional envolvendo os personagens em situação diversas. Como dito em outra parte do texto, o livro é quase totalmente uma descrição da ilha, parecido com um livro didático. Pensando melhor, vou substituir o 'enredo' por 'trama ficcional', está melhor?

Jéssica Modinne disse...

Acho que o livro deve ser interessantíssimo, livros desse gênero são mais "proveitosos", com "trama ficcional" ou não. =)
Gostei do seu blog, não só por dar dicas sobre filmes e livros, mas pela forma crítica que você expõe os posts.

Obrigada por comentar no Hoppípolla.

www.hoppipollablog.blogspot.com

Mura disse...

Sempre citado em paralelo com "Admirável Mundo Novo", "1984" de George Orwell também é um ótimo livro que mostra os sintomas da objetificação do ser humano e da mente racional intrumentalizadora. O livro mostra uma sociedade na qual não existe uma mínima brecha para a subjetividade e a liberdade. Tudo é controlado para que o sistema funcione, desde o modo de vida das pessoas até a sua mente.
George Orwell é bem interessante pois ele não consegue encontrar saída alguma para o ser humano. Huxley, por outro lado, mostra que é possível haverem saídas e estão entre elas, como você citou, o abandono da religião e do capitalismo. Nos livros de Huxley ainda existe essa utopia de que há esperança: em uma ilha, ou em um foguete para outro lugar.
É por isso que ainda prefiro mais o Orwell. O problema dele é bem mais próximo da gente, quero dizer, sua tentativa de luta se dá para subverter aquilo que existe e está dado. Mesmo que de forma pessimista, a luta é bem mais presente do que nas fugas de Huxley.
Caso houvesse uma junção Huxley/Orwell talvez tivesse aí uma chance de entender melhor a nossa situação e mudar alguma coisa: Orwell na tentativa da subverção e Huxley na busca pela utopia.

Henrique disse...

Sim, exatamente como você disse, eu percebi também essa falta de preocupação do Huxley de mudar uma situação já existente. Ele só aponta os problemas e nos faz sentir como lixo. Assim, se juntarmos a falta de soluções do Huxley com o pessimismo de Orwell, acho que podemos concluir que estamos realmente perdidos.

(Do George Orwell eu só li "A Revolução dos Bichos". )

suelen disse...

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Anônimo disse...

Bom, enredo porque é um romance... Sim a mim parece-me um ensaio aromançado. Mas isso importa, enquadrar o Livro numa categoria e depois exigir o que para a mesma está estipulado? Esqueçamos a categoria. Vamos lá a ler. É uma perspectiva ( a meu ver) interessante a de uma sociedade que busca o auto-conhecimento que naturalmente, quando esta busca é extensível a todos os individuos de uma comunidade,culmina em felicidade (que inclui as tristezas da vida)do povo. Porque, como aliás é dito no livro, o Homem é biologia, psicologia, sociologia e ecologia, a sociedade palense tenta ter em conta o Homem no seu todo o que também inclui a religião, que não é negada mas sim não institucionalizada.
Resumindo é um bom livro para refletir.