terça-feira, 11 de junho de 2013

Biutiful


Nome original: Biutiful
Direção: Alejandro González Iñárritu
Elenco: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Hanaa Bouchaib
Gênero: Drama
Ano: 2010



     Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011, a obra de Alejandro González Iñarritú traz Javier Bardem interpretando um pai lutando para cuidar de seus 2 filhos enquanto espera a morte.
     Uxbau é um pai separado que usa seu dom de conversar com os mortos e participa de atividas ilíticas para ganhar a vida e cuidar de seu casal de filhos pequenos num subúrbio na Espanha. Após sentir dores e ir ao médico, descobre que tem poucos meses de vida graças a um câncer, começando sua luta para tentar deixar as coisas em ordem antes de partir.
     Biutiful é o mais fraco dos três filmes que já vi desse diretor mexicano. Contudo, não chega a ser ruim. Só não é tão memorável quanto 21 gramas e Babel. O longa é monótono em várias partes, exigindo muita sensibilidade para que o espectador chegue a ficar perturbado e comovido com a situação de Urbau. Imagino que isso tenha ocorrido devido à extrema introspecção do personagem, graças à atuação muito convincente de Bardem (o que deu um grande brilho ao longa), durante toda a história, vivendo a tristeza
de esperar seu fim em meio a todos os problemas em silêncio. Esse é um aspecto do filme que o torna original, mas também falho em criar algum vínculo emocional do espectador com o personagem principal. Obviamente há cenas chocantes e densas, como a chacina não-proposital dos chineses, mas são partes isoladas nessas mais de duas horas de filme, que trazem reflexões sutis demais sobre espiritualidade e morte.
     Como pode ser percebido na dedicatória antes dos créditos finais (de Iñárritu para seu pai), Biutiful é mais uma homenagem às amadas figuras paternas e seu amor por seus filhos do que um drama mais complexo como os outros do diretor.

Conceito: Bom

domingo, 9 de junho de 2013

Melancolia


Nome original: Melancholia
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg,  Kiefer Shuterland
Gênero: Drama
Ano: 2011


       Há filmes que são filmes. Histórias contadas usando sons e imagens. Contudo, há filmes que são poesias, poesias audiovisuais que, se lidas no momento certo e pelos olhos certos, proporcionam uma experiência quase epifânica. "Melancolia", uma obra prima de Lars Von Trier, é dessas.
      Tal é a grandeza desse filme, que não me contive e me propus escrever uma resenha mais apurada, mesmo já o tendo visto pela primeira vez, há mais de um ano, numa sala de cinema, e tendo deixado um pequeno comentário no blog. É válido dizer que a experiência que esse filme me proporcionou naquela época foi muito maior do que agora que o revi, graças ao momento específico que estava vivendo lá. Mas quando uma arte é boa, não importa quantas vezes você a enxerga, sempre consegue a ver.
     Como os outros filmes do diretor, este contém seus elementos característicos, como a divisão em capítulos, a câmera móvel e a valorização dos diálogos. Entretanto, aqui também vemos o culto à imagem e toda a beleza que esta pode oferecer. Logo no início, a sequência de imagens maravilhosas, semelhantes a pinturas surrealistas, em câmera lenta, demonstram a profundidade do longa.
      O primeiro capítulo tem como foco a personagem Justine (Kirsten Dunst) e sua festa de casamento, que acontece na casa da irmã, Claire, e de seu cunhado milionário, o anfitrião. De início, a noiva parece estar vivendo o que espera-se dela: felicidade. Contudo, logo no inicio da recepção, percebemos seu real estado, simplesmente alheia a tudo que ocorre a sua volta e sendo pressionada por todos para "ser feliz". No segundo capítulo, focado em Claire, sabemos que "Melancolia" é um misterioso planeta que passará próximo à Terra e corre o risco de encontrá-la. Com isso, Claire (brilhantemente interpretada por Charlotte Gainsbourg, também presente em "Anticristo", do mesmo diretor), luta contra o desespero, isolada com a irmã depressiva, o filho pequeno e o marido na gigante casa de campo, até o dia da chegada do planeta. Saber que o diretor se encontrava em uma fase da vida na qual teve depressão dá condições de entender melhor a situação melancólica e pessimista que vive Justine. É impossível alguém que já teve tais momentos não se reconhecer. Talvez a ideia não tivesse funcionado tal bem não fosse a incrível compatibilidade entre as duas atrizes principais, que conseguem construir uma relação irmã-irmã comovente e real.
     Frases como "A Terra é má, não precisamos lamentar por ela. Ninguém sentirá falta", conseguem expressar toda a carga de descrença, frustração e aniquilamento que nós, seres conscientes da nossa futura morte certa, em muitos momentos experimentamos. Os belos diálogos e imagens, juntamente com a trilha sonora de violino, formam a melhor personificação da melancolia que já vi no cinema. Mais um filme que ao invés de exigir uma mente aberta, exige um coração disposto a absorver as sensações que surgem quando nos conscientizamos da nossa pequenez e fragilidade como humanos.

Conceito: Excelente

Preciosa - Uma História de Esperança

     
Nome original: Precious
Direção: Lee Daniels
Elenco: Gabourey Sidibe, Mo'Nique Irnes Jackson, Paula Patton
Gênero: Drama
Ano: 2010


      Filme ganhador de 2 Oscar em 2010 - inclusive de melhor roteiro adaptado, do livro "Push" - é um drama que se destaca pelas excelentes atuações e uma carga de tragédia que supera a maioria do gênero.
      Preciosa é uma garota de 16 anos, negra, obesa e analfabeta que vive no bairro do Harlem em 1987, esperando seu segundo filho, quando entra em uma escola alternativa pra tentar encontrar esperança em meio a sua rotina de abusos e violência familiar. Logo nas primeiras cenas o cenário brutal na qual a personagem interpretada pela iniciante Gabourey Sidibe vive exposta: abuso sexual pelo pai, casa escura e desorganizada no bairro pobre de Nova Iorque, humilhações e violência por parte da mãe e a aparência da garota, totalmente sem luz, imersa na escuridão.
      Apesar de a personagem desde o início se mostrar extremamente apática e descrente, durante a história vemos algumas imagens que seriam provenientes da imaginação e dos sonhos da mesma, na qual ela é uma estrela adorada por vários e desejada, traçando uma história paralela àquela cruel realidade vivida. Quando a garota vai para a nova escola e encontra sua nova professora que passa a ser sua maior ajudante e fornecedora de esperança, abre-se uma pequena brecha para o que parecia ser uma situação sem solução. Numa turma com garotas com problemas semelhantes aos seus, Preciosa, aos trancos e barrancos, sobrevive.
      Quem espera um drama romântico e idealizado de "Preciosa", engana-se. O filme preza pelo realismo, bastante cruel nesse caso, e diferentemente de outras tramas do gênero, não tem o formato típico de trajetória do personagem: submundo, transformação, ascensão. Como geralmente ocorre na vida real, as mudanças vem aos poucos, com quedas durante o caminho, sendo uma delas a noticia trazida pela mãe de Preciosa enquanto se encontrava no abrigo, quase tirando novamente a firmeza e fé da garota.
      Há diversas cenas memoráveis durante o longa, e as melhores são as protagonizadas por Mo'nique, como a deplorável mãe, que prova que realmente mereceu o Oscar de melhor atriz coadjuvante.
      A história, mais do que um drama de partir o coração, é um ensaio sobre esperança (como o próprio nome brasileiro explana), família, amor e onde encontrá-los nesse mundo.


Conceito: Muito Bom

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Europa



Nome original: Europa
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Jean-Marc Barr, Barbara Sukowa

Gênero: Drama
Ano: 1991



      "Europa" faz parte de uma trilogia de filmes (os primeiros!) do diretor dinamarquês Lars Von Trier que não seguem a mesma história, mas sim utilizam da mesma técnica. Leopold Kessler é um jovem americano que consegue um trabalho na fictícia companhia ferroviária alemã Zentropa na Alemanha recém saída da guerra, no ano de 1945. Vindo de uma acolhedora América, com o espírito idealista, o personagem flutua no ambiente destruído e cruel, fruto do terrível conflito.
      A narração presente desde a primeira cena, como se fosse uma hipnose, nos prepara, com contagens regressivas, para os acontecimentos que se sucederão em breve. O primeiro plano, a vista dos trilhos a partir de um trem em movimento no prepara: "No 10 você estará em Europa".
      A imagem em preto e branco dá uma beleza requintada ao longa, e faz lembrar "A lista de Schindler", também pelo tema tratado. Entretanto, a inovação de Von Trier foi dar cor a alguns personagens e objetos em momentos importantes, para destacá-los, além do recorte e sobreposição de imagens em várias partes.
      Após Kessler começar a se envolver com Katharina Hartmann, filha do dono da companhia, os conflitos começam a surgir e até no meio de uma conspiração de resistência nazista ele se vê, provando que a Alemanha naquele tempo era pequena demais para pessoas que, como ele, não tinham uma posição no conflito que se negava a ser esquecido.
      Os diálogos são excelentes, carregados de um drama psicológico que, juntamente com a trilha sonora de suspense constante e o cenário claustrofóbico de um vagão, torna o filme perturbador e com traços noir. Como não se perturbar num lugar palco de tamanho derramamento de sangue e destruição? Alemanha novamente dando arrepios.
      Entretanto o roteiro soa um pouco amador quando explica demais a situação que está ocorrendo, não deixando nada implícito, como se o espectador não fosse capaz de notar na mesma hora, por exemplo, que o judeu que seria a testemunha numa cena tinha sido comprado.
      Outro ponto interessante, é que o roteiro se torna um bocado tarantiniano (no sentido de "nonsense") nas cenas finais, quando o personagem se vê numa confusão que o leva a surtar, suavizando o clima, mesmo com o caos ao redor.
      "Europa" é uma viagem que vale a pena.



Conceito: Excelente

sábado, 12 de janeiro de 2013

Os Idiotas



Nome original: Idioterne
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Jens Albinus, Nikolaj Lie Kaas, Paprika Steen
Gênero: Drama
Ano: 1997

      Primeiro filme de Lars Von Trier feito de acordo com os princípios do Dogma 95 reforça minha condição de grande admirador do cineasta.
      O filme mostra um grupo que forma uma espécie de sociedade alternativa na qual o objetivo é se passar por afetados mentais, tirando sarro em diversas situações e causando constrangimento nas pessoas. No início do filme vemos os personagens interpretando doentes mentais simplesmente para tirar proveito ou para pregar uma peça em desconhecidos. Contudo, com o decorrer da história e a câmera (que devido à brilhante direção parece estar infiltrada entre o grupo) focando o grupo isolado em uma casa, conflitos mais densos começam a surgir, como por exemplo, a discussão sobre a falta de ética em enganar as pessoas e se realmente o objetivo da minissociedade estava sendo cumprido pelos seus integrantes.
      Dentre os personagens, há uma flutuante, chamada Karen, que se junta ao grupo por falta de opção, mas que está longe de querer ser uma rebelde anarquista. Sendo assim, é a mais intrigante e a que protagoniza a cena final, digna de aplausos.
      Além da originalidade do roteiro de Lars Von Trier e do uso Dogma 95 (que faz com que o filme se pareça com um vídeo caseiro), é inacreditável que aqueles são atores fazendo papéis. O entrosamento e atuação de todos beiram a perfeição.
      “Os idiotas”, ao contrário do que parece no início, é um filme que, como todos do diretor, faz pensar, e de um jeito tão instigante e inovador que suas duas horas de duração passam num piscar de olhos.

Conceito: Excelente

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Forks over knives



Nome original: Forks over kvives
Direção: Lee Fulkerson
Gênero: Documentário
Ano: 2011


Coma pra viver, não viva pra comer


      Documentário tem como assunto principal a relação entre a dieta baseada em alimentos de origem animal e a incidência de doenças cardiovasculares e câncer.
      O filme tem uma riqueza imensa de estatísticas* e de depoimentos de médicos que se empenharam em estudar a dieta de grupos e sua correlação com a qualidade de vida e a indidência de doenças. Tem como o principal objetivo oferecer uma visão diferente de certas verdades inseridas no senso comum, tais como: "carne é essencial para obtenção de proteínas" e "leite de vaca é a melhor fonte de cálcio e evita a osteoporose". Contudo, documentário vai além: oferece uma série de reflexões sobre como nossa sociedade encara o ato de se alimentar, inclusive citando a "tríade motivacional", que seriam as três buscas do ser vivo: prazer, evitar a dor e poupar energia.
     Sendo vegetariano ou não, uma questão é inevitável após ver o documentário: será que o modelo de alimentação que a sociedade ocidental atualmente tem como modelo realmente é válida, tendo em vista os inúmeros casos de doenças relacionadas também à alimentação?

*Ainda não pesquisei a fundo para comprovar sua veracidade

Conceito: Muito bom

Nós que aqui estamos por vós esperamos


Nome original: Nós que aqui estamos por vós esperamos
Direção: Marcello Masagao
Gênero: Documentário
Ano: 1999



     Documentário usa recortes biográficos reais e ficcionais para representar o século XX e toda sua efervescência.      Sem seguir a típica e didática linha cronológica dos documentários tradicionais,  este, além de dispensar a também típica narração, se revela um experimento totalmente original no que diz respeito a pelo menos a todos os documentários que já assisti. Com uma mescla de música, citações, imagens (vídeos e fotos) de personalidades conhecidas e personagens até então anônimos, temos um excelente retrato do século anterior, incluindo seus grandes pensadores, os dois grandes conflitos mundias, as invenções, a mudança da presença feminina na sociedade e as diversas outras transformações que se sucederam. Qualquer listagem que eu faça sobre os temas abordados pelo longa ficará imcompleta, graças à riqueza de informações contidas no filme.
     O jogo de imagens mesclado com as mensagens escritas, durante todo o filme, demonstram como, no cinema, uma boa idéia e criatividade são bem mais importantes que uso de alguns recursos, como efeitos-especiais mais complexos, um roteiro definido ou mesmo uma narração.
     A maior genialidade do filme, entretanto, é saber retirar das imagens muitas histórias (reais ou ficcionais) que geralmente passam despercidas. Em muitos momentos, as pessoas que aparecem nas imagens ganham nomes e um breve resumo da sua vida. Histórias essas que ficam perdidas quando vemos documentários, que geralmente se preocupam em mostrar estatísticas ou com grandes nomes, fazendo com que esqueçamos, por exemplo, que aquele operário na linha de produção, cuja imagem é usada para retratar o fordismo, também é um ser humano, como a gente, que teve sua história de vida, com seus amores, suas derrotas e vitórias, seus sorrisos e suas amarguras, e por fim, sua morte. Exatamente como na citação de Christian Boltanski, brilhantemente inserida no filme:


"Numa guerra não se matam milhares de pessoas. Mata-se alguém que adora espaguete, outro que é gay, outro que tem uma namorada. Uma acumulação de pequenas memórias..."


     Um dos problemas da atual sociedade talvez tenha surgido no século retratado, com a invenção do rádio, da eletricidade, e toda a conectivdade e rapidez de informações que trouxeram: pessoas viraram números, bilhões, e nós somente um ser no meio de váris. Falar em milhares de morte aqui, milhões lá, parou de ter tanto efeito sobre nós. É preciso ter uma visão centrada, como Marcello Masagao explicita nesse filme, para perceber que mesmo sendo muitas, as pessoas que pelo mundo passaram foram importantes para ele de alguma maneira, criando-o, inventando-o, modificando-o ou simplesmente vivendo-o. Suas histórias, mesmo enterradas, ainda existem. Em um lugar para qual todos vamos, e eles esperam por nós.

Conceito: Muito Bom